domingo, 23 de abril de 2017

Crítica #101 - Vida

Crítica #101 – Vida (Life, USA, 2017)

Por Marlon Fonseca


A possibilidade de existência de vida fora da Terra voltou a ser um assunto em voga diante das recentes descobertas publicadas pela Nasa. Diante desse cenário Vida acabou se tornando mais atual e assustador do que já seria.

O filme traz um grupo de astronautas e cientistas que, dentro de uma estação espacial em órbita do nosso planeta, faz estudos em uma espécime encontrada em Marte. Ela, porém, representa um perigo maior que o poder dessa descoberta.

Mesmo que a comparação com Alien seja inevitável e imediata, o longa consegue sustentar-se à sua maneira. É ainda uma ficção científica com elementos de terror mas traz ainda que discretamente, discussões científicas e de responsabilidade acerca de seu objeto de pesquisa.

E, quando as coisa fogem do controle o suspense toma conta e o objetivo passa a ser não somente a sobrevivência dos tripulantes, mas, também, que a criatura não chegue ao solo terráqueo.
Trata-se e um filme bem feito, dirigido e interpretado que consegue de fato trazer bons momentos de suspense e tensão para a plateia.

A criatura em questão consegue passar toda sua inteligência e maldade no filme e é sem dúvidas um dos seus grandes atrativos.

Dentre os elementos de linguagem cinematográfica o que mais se destaca é a utilização do som para a construção desse clima. A mixagem sabe usar bem as caixas de som ambiente, trazendo o jogo de “gato e rato” entre o monstro e os tripulantes para dentro da sala de cinema, ajudando na imersão.
Uma descoberta que pode causar mais terror do que admiração

A fotografia também trabalha com certas significações. Seja quando quer destacar o vazio e a solidão do espaço seja quando quer mostrar que a aproximação com a Terra é bela mas é ao mesmo tempo perigosa nesse cenário.

O bom e diversificado elenco o qualifica ainda mais, trazendo não só o caráter de diversidade cultural como o de condutas diante da situação. Cada personagem, mesmo que de forma sucinta, tem uma motivação própria dentro do experimento, o que reflete na forma que encaram o problema.

O desfecho é acima da média e é feito de forma elegante, além de ser exemplo de uma montagem eficiente.


No espaço ninguém vai ouvir você gritar


Vida entrega, portanto, uma ficção científica de terror eficiente com doses de tensão e suspense sob medida para manter o espectador vidrado até o final. De quebram consegue exprimir com raridade toda a maldade e perigo de seu monstro.


Nota: 8,5


Ficha Técnica: Vida (Life, USA, 2017). Suspense. Terror. Ficção científica. Direção: Daniel Spinosa. Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Fergunson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada, Ariyon Bakare. Duração: 104 min.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Crítica # 100 - Velozes e Furiosos 8

Crítica # 100 – Velozes e Furiosos 8 (Fate of the furious, USA, 2017)

Por Marlon Fonseca


          Velozes e Furiosos sabe que ela tem primado principalmente por absurdos e pela diversão descompromissada, com situações que ressaltam a noção de amizade, principalmente do quinto capítulo em diante. Essa oitava parte tem o desafio de continuar a saga sem um dos principais pilares, Paul Walker, e ainda se manter interessante.
  A essa altura do campeonato quem acompanha a série

            Para tanto, o roteirista Chris Morgan, que escreve os roteiros da série desde o terceiro filme, traz um novo elemento dramático para chacoalhar as coisas. Na trama, Dominic Toretto se volta contra a sua “família” ao se ver obrigado a se aliar a cyber terrorista Cypher, cabendo a seus companheiros descobrir e deter seus planos ealém de resgatá-lo. 

            O filme acertadamente dá maior destaque ao personagem de Dwayne Johnson para suprir a lacuna de Walker, como o “segundo em comando” na família. Seu carisma natural e sua veia cômica são bem utilizadas inclusive nas cenas de luta, propositalmente stilizadas, beirando o cartunismo. Sua “química” com Jason Statham, que também flerta com o caricato divertido, reside numa das melhores coisas aqui.

Aliás, novamente, o roteiro soube utilizar a inegável e forte química do elenco trazendo momentos onde cada aptidão dos personagens é trabalhada dando assim oportunidade de brilho para cada um à sua maneira. A Letty de Michelle Rodriguez, por exemplo, cresce a cada filme.

Como novidade a inclusão de Charlize Theron como vilã traz um novo peso a série. Em outras oportunidades (precisamente em Prometheus e Branca de Neve e o Caçador) a estrela sul africana já havia mostrado um talento ímpar para papeis vilanescos. E aqui ela confirma essa habilidade trazendo a melhor vilã da série até o momento. Fria, cínica, inteligente, trazendo no olhar todas essas características, a personagem sobre ser de fato uma rival à altura para Don e equipe. Outra “aquisição” interessante é a presença da grande dama Helen Mirren, que declarava publicamente ser fã da série, em uma participação curta, porém divertida.

A química do elenco é um dos trunfos da saga...


            A narrativa é no fundo simples e as motivações dos personagens são trabalhadas de forma razoáveis e superficiais, sendo algumas situações bastante forçadas em alguns casos, mas nada que atrapalhe o que o filme realmente deseja oferecer. No fundo no fundo a saga, conforme falamos acima, deseja mesmo é brindar o espectador com sequências a cada filme mais absurdas e improváveis.

            Capitaneando esse capítulo, o diretor F. Gary Gray, que já trabalhou com Charlize e carros no divertido Uma Saída de Mestre, dirige com competência as sequências de ação. Mesmo com ‘carros caindo do céu” (sim, isso acontece) e perseguições alucinadas nas ruas de Nova York, o espectador não se sente perdido. A sequência final supera tudo o que a série já demonstrou em situações exageradas, superando até mesmo, o "pega" contra um jato do sexto filme.


...além da busca frequente na superação dos absurdos que porpõe

            Com todos esses elementos temos um dos melhores e mais divertidos filmes de toda a saga que segue assim em sua onda de evolução e reinvenção para continuar no topo do gênero
.
            Trazendo um elenco cuja química é evidente e que notadamente se diverte fazendo o que faz, com cenas de ação bem trabalhadas e divertidas, Velozes e Furiosos 8 é um passo à frente na “comédia de absurdos com coração” que a série tem como proposta ser. É um filme extremamente divertido e é isso que importa de fato para Don e sua família.



Obs: Não há cena pós crédito.


Nota: 8,0
              

Ficha técnica: Velozes e Furiosos (The Fate of the Furious, USA, 2017). Ação. Aventura. Direção. F. Gary Gray. Elenco: Vin Diesel, Dwayne Johnson, Jason Statham, Michelle Rodriguez, Tyresse Gibson, Ludacris, Charlize Theron. Duração: 134 min.

domingo, 9 de abril de 2017

Crítica: The Legend of Zelda: Breath of the Wild

...Games


Uma jornada de descobertas, chegadas e partidas.
Em Breath of Wild a saga Zelda novamente se reinventa e impacta o mundo dos games


Por Marlon Fonseca


Quem mesmo nunca jogou um jogo da saga “Zelda” sequer deve reconhecer a sua importância. Vez ou outra um lançamento da série é capaz de marcar uma geração e a história dos games em geral. E, em outro aspecto, ela consegue dentro de sua própria marca manter sua e base evoluir ao mesmo tempo em cada jogo chave que ela possui.

Nesse aspecto podemos considerar, por exemplo, The Legend of Zelda (NES), A link to the past (SNES), ocarina of time (N64 e 3DS) e, agora, breath of the wild como as “espinhas dorsais” dessa linha evolutiva.

Seguindo muito do padrão dos jogos citados acima, Link continua sendo o herói resoluto que ao despertar-se tem a missão de salvar Hyrule de um grande mal. Segundo seus idealizadores ela não faz parte de nenhuma das linhas narrativas da intricada cronologia da saga. Não seria de se espantar, também, se estivermos diante de mais um novo ponto de partida.

Miyamoto sempre declarou que concebeu o primeiro jogo para aguçar o espírito de descobertas no jogador. Cabia a ele entender e desbravar o que fazer e, se possível, compartilhar com os demais jogadores para criar uma rede de informações para se chegar, enfim, ao seu final. Seu sucessor e atual produtor da série, Eiji Anonuma soube seguir essa essência.

Breath of The Wild, que marca a despedida do Wii U e o início da era Switch, é acima de qualquer coisa, uma jornada de descobertas. E mais importante, resgata e fomenta mais do que em qualquer outro jogo já criado o caráter intuitivo da exploração mesmo que nas mínimas coisas.

Tudo é feito de forma bastante sútil. Por exemplo, logo no começo do jogo ao sair da caverna, link se depara com um machado perto de uma árvore. Intuitivamente o jogador se vê tentado a pega-lo. Se o fizer e cortar a árvore, ela cai no chão deixando frutos. Estes, se consumidos, recuperam parte da barra de energia. Ou seja, uma coisa vai levando a outra numa rede de revelações e aquisição de experiências e conhecimento.

O despertar para a aventura

E isso vai se expandindo em cada momento. Até por que ele só passa o mínimo de informações para que você prossiga na aventura. O mapa só aponta para onde se deve ir. Como, quando, você chegará lá é problema seu. No caminho mais achados vão aparecendo em forma de locais, pessoas, cidades, itens, etc.

Aliás, uma das coisas mais recompensadoras é quando se descobre em seu decorrer e a cada momento o quanto o jogo é minucioso até nos mínimos detalhes. Efeitos da chuva no solo e nas rochas, temporais em apenas alguns pontos do mapa podendo se vislumbrar de longe, etc. E, conforme, o desejo de Miyamoto, é acolhedor trocar essas manifestações com os colegas de exploração. Não é de se espantar que a cada jogada, a cada momento novos pequenos detalhes vão surgindo e maravilhando os jogadores.

Tudo isso potencializado por um mapa com geografias e identidades únicas que só potencializam a vontade e o instinto de conhecer cada lugar dessa nova versão de Hyrule.

Explore e descubra Hyrule das mais variadas maneiras


Além disso, clima e física fazem parte importante dessa jornada de descobertas. Se está em um local feio, Link deve de alguma forma procurar se aquecer. Use uma tocha e a acenda em uma lareira. Consiga uma roupa própria para isso ou um alimento com esse tipo de atribuição. Já com o paraglinde, o uso do vento pode ser favorável ou prejudicial na locomoção dependendo de direção e intensidade. Se utilizar fogo e choque em áreas sensíveis a eles o local e os inimigos próximos sentirão seus efeitos. Já as tempestades podem ser mortais.

O personagem nunca esteve tão ágil. Sua movimentação é precisa e nunca se teve tantos movimentos e opções de armas e itens como aqui. Cada qual com características como alcance, força, fraqueza, duração, trazendo uma gama de opções bastante variadas.

Além de inovar a própria saga e trazer novos elementos ao gênero de rpg de ação em mundo aberto, Breath of Wild soube também trazer para si elementos de jogos consagrados. As torres exercem função similar ás famosas ubitowers em jogos da ubisoft como far cry e assassins creed, por exemplo. Além de serem pontos de referência no mapa, servem para descobrir novo locais ao seu redor e de pontos de “viagem rápida”.

O jogo é repleto de detalhes para serem descobertos


Já na jogabilidade, uma barra de stamina, expediente que se vem sendo usado com mais habitualidade após a saga souls, traz um caráter estratégico e comedido nos usos de movimentos. Até uma escalda deve ser pensada e estudada antes de ser realizada dentro desse diapasão.

Ele se permite, inclusive, a incorporar alguns momentos de furtividade, outro elemento muito em voga nas ultimas gerações.

As tradicionais dungeons continuam sendo exemplo de level design inteligente, onde tudo se conecta ao final. Aqui elas se inovam em formas de divine beats onde até mesmo aborda-las geram momentos marcantes. Como não deveria deixar de ter, as boss battles seguem o estilo de descoberta de padrões e pontos fracos do oponente.

Aliadas a elas há a inclusão de shrines(templos), espalhadas por todo o mapa, que promovem desafios mais curtos, onde o uso da lógica é mais importante na maioria dos casos do que a habilidade. As orbs obtidas ao vencer cada uma são reversíveis em evolução nas barras de vida e stamina.

Shrines representam novos e variados desafios


Dentro do aspecto de missões secundarias há as habituais tarefas por itens trazidas por personagens ao longo da aventura. Além delas, a possibilidade de adquirir uma casa e desenvolvê-la também pode servir como expansão da experiência. Por fim, link pode tentar domar cavalos selvagens que encontrar pelo caminho e “registra-los” em estábulos espalhados pelo mapa. Mas estes são apenas exemplos trazidos aqui e, existem tem muitas outras coisas a serem exploradas e desvendadas.

Outra secundária importante é a busca por memórias a serem ativadas ao longo do mapa. Ao achar o ponto certo uma custcene aparece contando detalhes do passado. Nessas memórias quem brilha é zelda onde apresenta maior desenvolvimento e profundidade do que nunca visto na saga.


Desbloquear as memórias trazem momentos importantes e emocionantespara a história


Os gráficos são apresentados em um lindíssimo cel shadding, que torna toda a fauna e flora de Hyrule ainda mais viva. Animações e design de personagens e cenários são de alto nível e extremo bom gosto. Além de respeitar e diversificar a “identidade” dos locais, regiões e povos encontrados pelo caminho. Efeitos de partículas e iluminação completam a beleza gráfica do jogo.

A exuberância gráfica é notória

Já o som além de trazer acordes e trilha sonora que acompanham e embalam os momentos da história faz o uso do silêncio como potencializador do caráter de experimentação e vivência do game. Barulhos de vento, animais, da natureza em geral, assim se destacam trazendo uma sensação de imersão e contemplação únicas.

Os controles são precisos e a curva de aprendizagem é orgânica e dentro das experiências que o jogo vai proporcionando. Ele usa todos os comandos e atributos possíveis dos joy com´s do Switch. Há também a possibilidade de usos dos amiibos, cada um trazendo itens diferenciados, sendo alguns raros e exclusivos como vestuários e até mesmo o mítico cavalo Epona.

Como maior aspecto negativo que se deve destacar fica por conta de eventuais quedas na taxa de frame e alguns “engasgos”. Na versão testada, a do Switch em forma de console de mês, porém, isso ocorreu muito pouco. Relatos apontam que a versão para Wii U tem sofrido mais com esse tipo de problema. Um patch lançado recentemente prometeu melhorar esse aspecto em ambas as versões. Há também ocasionais “pop ins” onde elementos do cenários vão se “construindo” na frente do jogador. Mas nada que de fato atrapalhe a jogatina.




Como diz a celebre frase “a jornada é tão importante quanto o destino” e Breath of The Wild a encarna muito bem ao trazer e incentivar um mundo de descobertas e aventuras nunca antes visto. O tempo irá dizer se temos um dos maiores jogos de todos os tempos, mas sem dúvidas trata-se de uma obra-prima e um dos jogos mais bem produzidos, inteligentes e detalhados das últimas gerações. E ainda serve como uma digna despedida de um console e a chegada triunfante de outro.



Nota: 10,00



Ficha Técnica: The Legend of Zelda Brath of the Wild.

Gênero: Aventura, RPG

Desenvolvido por: Nintendo

Publicado por: Nintendo

Consoles: Switch, Wii u. Testado na versão switch.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Crítica #99 - A Cabana

Crítica #99 – A Cabana (The Shack, USA, 2017).

Por Marlon Fonseca

O tema da relação entre o homem e sua fé já foi abordado de inúmeras formas e gêneros no cinema. M. Night Shyamalan, por exemplo, fez o personagem de Mel Gibson a readquirir após o enfrentamento de uma invasão alienígena em Sinais. Já em O Exorcista o padre Karras precisou enfrentar o próprio demônio. No recente Silêncio, Martin Scorcese abordou o assunto sobre o viés histórico e cultural. Já nesse A Cabana o enfoque é metafórico através de “diálogos com o próprio Deus”.

Adaptação do livro de grande sucesso de Willian P. Young, publicado no Brasil em 2008, a história traz um homem que apesar de cercado de pessoas de fé (primeiro seu abusivo pai e mais tarde esposa e filhos) nunca soube lidar com o assunto de forma apropriada. Após uma tragédia, recebe uma misteriosa carta que o leva a cabana do título.

A boa notícia é que o filme não cai na perigosa pieguice que pode cercar o tema e o gênero. É tudo muito contido, inclusive no uso da trilha sonora, quase que incidental. Não se trata portanto de uma “pregação disfarçada”.

Há, porém, uma irregularidade narrativa que o prejudica como filme e mensagem. Ele oscila entre bons e inspirados diálogos para declarações mais expositivas e não aprofundadas. Os temas propostos soam quase todo como superficiais além das relações entre os personagens que se tenta estabelecer e desenvolver ali.

Sua maior covardia nesse aspecto reside em insinuar um ato negativo do protagonista no início do filme e depois simplesmente ignorá-lo em seu restante.

Assim como toda obra cultural, e principalmente pela temática trazida, sua leitura vai depender da pré-disposição do público em encara-lo. O espetador mais em dia com sua fé vai assimilar melhor a mensagem e conseguir se emocionar em alguns momentos.

Relação entre o protagonista e a trindade é mal desenvolvida


Já por outro lado, certas questões serão mais criticadas por quem o enxerga mais distante e friamente. Pode-se indagar, por exemplo o porquê do protagonista ter sido “beneficiado” para conversar com a trindade ao invés de qualquer outra pessoa em necessidade ou conflito interno. E aqui não há qualquer explicação metafórica que consiga saciar esse questionamento.

Tecnicamente traz uma fotografia bonita que serve para oscilar entre o humor do protagonista. Há, até o uso do expediente das cores no vestuário como indicativo de estado de espírito dos personagens Tome como exemplo, a personagem Nam (Radha Mitchell), esposa, do protagonista. Antes da “grande tristeza” ela aparece sempre em tons claros, com uso excessivo de branco. Após, ela já usa vestes mais acinzentadas e fechadas, mostrando a sua dor e ao mesmo tempo sua força em ser o pilar da família naquele momento. Os demais sempre estão em tom escuro após o acontecimento, chegando ao fato de o protagonista usar até mesmo uma veste vermelha para expressar sua raiva.

Família unida e feliz antes da "grande tristeza". Nessa fase os vestuários são mais claros e leves

Do elenco, o fator positivo fica para o trio que interpreta os filhos do casal que seguram muito bem principalmente nas cenas dramáticas. A jovem Missy (Nome não dado por acaso) interpretada por Amélie Eve tra uma luz e espontaneidade admiráveis. Octavia Spencer surpreendentemente abandona seus maneirismos exagerados e olhos esbugalhados e traz uma atuação serena como o papel lhe exige. Já Sam Worthingtom que por há algum tempo atrás pintou como novo astro de filmes de ação e vinha sumido não alcance ao máximo as nuances dramáticas necessárias para Mackenzie. A brasileira Alice Braga aparece em um importante segmento onde justamente é a parte onde os diálogos e situações são melhores resolvidas.

Trazendo uma mensagem importante e questionamentos e metáforas válidas de forma beneficamente sutil, A Cabana acaba esbarrando em uma execução irregular e superficial em muitos dos temas propostas o que lhe prejudica como filme e mensageiro.

Nota 6,0


Ficha técnica: A Cabana (The Shack, USA, 2017). Drama. Fantasia. Direção: Stuart Hazeldine. Elenco: Sam Worthingtom, Octavia Spencer, Radha Mitchell, Megan Carpenter, Gage Munroe, Amélie Eve. Duração: 132 min

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Linguagem cinematográfica: Os subtextos sociopolíticos em filmes de zumbi

 Os subtextos sociopolíticas em filme de zumbi tendo como exemplo O Despertar dos Mortos

Por Marlon Fonseca

            Dentro do gênero terror, o de “filme de zumbis” permanece entre os mais populares. Tratando de questões como a volta de pessoas mortas e trazendo sempre imagens fortes e grotescas ele também traz em seu bojo, ainda que de forma indireta, várias questões e críticas sociais.

            Vimos anteriormente que o roteiro é a pedra fundamental de um f ilme. É nele que se inicia o processo de produção e contém de forma escrita toda a história do filme além de informações de personagens, ângulos de câmera, cenário, etc. É nele, também que há as indicações de eventuais subtramas ou subtexto, é o “falar nas entrelinhas”.

            “Se você é um verdadeiro fã do horror, acaba desenvolvendo a mesma sofisticação que um apreciador de balé desenvolve – cria uma sensibilidade para a profundidade a e textura desse gênero”, destaca Stephen King[1]

            A afirmação acima é importante para ilustrar dois pontos: o primeiro corrobora o que foi falado anteriormente. O “leitor” de um filme, quanto mais ciente da complexidade e amplitude de sua linguagem, mais aberto ficará para absorver as informações contidas nele. Já num segundo plano, impõe, ainda que indiretamente o conceito de subtexto.

            Subtexto pode ser definido como “mensagem implícita ou subentendida naquilo que alguém diz ou escreve”[2]  E os filmes de zumbis utilizam-se bastante desse expediente para trazer críticas políticas e sociais.

Os filmes de zumbis modernos trazem verdadeira alegoria política. Desde a década de 1960, estas criaturas assustadoras são usadas no cinema como uma poderosa metáfora crítica originária do mundo anglo-americano para apontar, por um lado, os excessos das sociedades capitalistas e da sociedade de consumo e, por outro, chamar a atenção para as lutas por direitos civis. 

George Romero com seu A noite dos mortos vivos de 1968, não criou o gênero, mas estabeleceu vários parâmetros que são utilizados até hoje. Para Bem Harvey, um estudioso da obra de Romero o filme estava conectado com “às realidades contemporâneas e às questões que estavam na ordem do dia em fins da década de 1960: o racismo, o colapso da família nuclear americana e a ressurreição do conservadorismo político”[3]

Mas foi, em sua sequência “Despertar dos Mortos”, de 1978 que essas aspectos foram ampliados e tornaram-se mais visíveis e contundentes.Na trama, passada após os eventos do filme anterior, o apocalipse zumbi ali iniciado começa a se espalhar por todo o país. Um grupo de sobreviventes se refugia em um shopping center na tentativa de se defender dos perigos.

O “palco” inicial de Despertar dos Mortos já traz uma forte crítica social. O filme é passado quase que totalmente dentro de um shopping center, que desde aquela época, e até o presente momento é usado como um dos principais símbolos do consumismo desenfreado.

            Ver pessoas com olhar distante, voz murmurante, passos arrastado ou em correria sem sentido é uma metáfora quase explícita do que presenciamos em um shopping center qualquer.

            Outra questão interessante é ver um dado zumbi repetindo as atividades que fazia quando “vivo”, como por exemplo, um guarda de trânsito sinalizado a ermo. Essa é uma crítica velada ao condicionamento excessivo, algo que Charles Chaplin já havia eternizado em Tempos Modernos, em 1936.

Em uma sequência do filme essas duas afirmativas são claramente expostas. Centenas de zumbis cercam o lugar – que frequentavam antes de morrer – tentando entrar para satisfazer sua fome. Ao finalmente adentrar o local, os mortos-vivos andam de um lado para outro por corredores, galerias e escadarias, e empurram carrinhos carregados de produtos que não vão usar.


  
            Outra questão sempre pertinente ao gênero é a quebra da ordem social. Com o surgimento da infestação de zumbis, não há mais governo, exército, polícia. Há a sensação de desespero e a busca pela sobrevivência que trazem á tona o que há de pior na humanidade. Nesse cenário, as pessoas acabam mostrando o seu pior, com atos de individualismo e crueldade na busca pela sobrevivência, deixando a questão de quem na verdade é o “selvagem” na história.


            Segundo o próprio Romero
“Meus zumbis são puramente um desastre. Eles são um desastre natural. Deus mudou as regras e de alguma maneira, essa coisa toda está acontecendo. Minhas histórias são sobre humanos que lidam com isso de maneira estúpida, e é por isso que eu os uso. Eu os uso meio que para fazer gozação com o que está acontecendo com um número de eventos sociais. E é isso, eu não os uso somente para criar carnificina. Mesmo que eu use carnificina, não é sobre isso que meus filmes são, eles são muito mais políticos.”[4]





            Assim, além de sustos e cenas marcantes os filmes de zumbis contêm mensagens sociais e políticas, sendo reflexos da sociedade na qual estão inseridas.

            Acabamos de ver algumas nuances a respeito da linguagem escrita no cinema. O roteiro contém todas as informações necessárias para as filmagens além de incluir subtextos para ampliar a sua mensagem. 



[1] KING, Stephen, Dança Macabra, Rio de Janeiro: Objetiva., 2003, página 99

[2] subtexto in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016. [consult. 2016-11-08 14:09:20]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/subtexto
[3] http://cadaumnasualua.blogspot.com.br/2013/08/george-romero-e-secularizacao-dos-zumbis.html
[4] http://umzumbipordia.blogspot.com.br/2012/01/george-romero-explica-os-zumbis-de.html

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Linguagem cinematográfica: 13 Reaons Why


Por Marlon Fonseca

Uma observação rápida sobre a o uso de linguagens da série queridinha do momento (com toda razão) "13 reasons why".da netflix.
Raparem que além da separação narrativa e de montagem da história em linhas diversas, há o uso de maquiagem, vestuário e fotografia para se fazer uma separação temática entre passado e presente além de auxiliar em muitas das mensagens que a obra deseja passar.

Enquanto no passado a iluminação é bem clara e os personagens soam mais bonitos e arrumados, no presente a iluminação é mais escura e os personagens chegam a apresentar-se “mais feios” e até mesmo com machucados ou "defeitos" visuais.

É um bom exemplo de como as linguagens são usadas para passar mensagens e informações e forma indireta. No caso em questão quanto mais o protagonista vai conhecendo o passado, mais feias as pessoas ficam e mais acinzentada é a vida ao seu redor no presente.

Para ilustrar o que foi dito segue como exemplo uma comparação com a personagem Jessica nas duas linhas narrativas.



domingo, 2 de abril de 2017

Crítica #98 - A Vigilante do amanhã

Crítica # 98 – A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the shell, usa, 2017).

Por Marlon Fonseca



Adaptação de manga e animes japoneses que se tornaram cult no ocidente, percorreu um longo caminho até chegar ao que enfim se apresenta, podendo inclusive, abrir portas para outras adaptações desse segmento como Akira, outro projeto em longa gestação.

Batizado aqui de A vigilante do Amanhã sua trama traz a personagem Major, uma agente modificada cientificamente e pertencente a um grupo de operações especiais, tentando se readaptar e encontrar seu lugar nesse novo mundo enquanto investiga os ataques de um cyber terrorista que ameaça a sociedade e essa nova realidade que se apresenta.

Visualmente temos um longa que impressiona e encanta. Com ecos de Martrix e blade runner, sua direção de arte e estilo são inegavelmente o ponto alto do filme. Essa ligação com os longas citados é compreensível pois o primeiro tem a própria animação que o inspira como fonte de suas muitas referências enquanto o segundo traz muito de sua pertinência temática. O casamento com a estética nipônica aliada ao estilo americano nunca ficou tão interessante de se ver e admirar.

O visual e o estilo são os pontos altos.

Se na forma e estilo ele acerta, erra em sua substância. Podendo tratar de temas como o impacto da tecnologia na sociedade, a responsabilização e limites de seu uso, dentre muitos outros, o filme prefere focar-se apenas e tão somente na jornada de redescoberta de sua protagonista.

Mesmo assim, isso não seria o maior problema se essa abordagem tivesse uma execução satisfatória. Porém, temos um filme inteiramente desprovido de emoção. As cens chaves que que Major confronta-se com a verdade e seu passado não conseguem trazer nenhum impacto emocional ao espectador. O subtexto da “alma dentro da casca” (daí o título original da obra) é trabalhado com o artifício de diálogos expositivos e repetitivos.

E essa apatia reflete-se, também, nas cenas de ação. Se a primeira sequência desse segmento, a do ataque de uma queixa-robô a um jantar, apresenta-se como um bom cartão de visitas, as demais são infectadas pela escolha da forma ao invés do conteúdo.

A questão existencial da protagonista é abordada de forma rasa.


            O elenco que traz bons nomes faz o que pode com o material. Scarlett Johansson, já habituada a esse tipo de papel, até tenta trazer um ou outro elemento de composição, como uma rigidez proposital ao andar, por exemplo e se sai bem nas cenas de ação. Juliette Binoche e Takeshi Kitano trazem mais corpo dramático apesar de serem igualmente sabotado pela superficialidade geral.

 Sendo assim, sobra estilo e beleza e falta um conteúdo melhor trabalhado em Vigilante do Amanhã. Aqui, a casca se saiu mais importante que a alma.


Nota: 6,5



Ficha Técnica: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the shell, usa, 2017). Direção: Rupert Sanders. Elenco: Scarlett Johansson, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Takeshi Kitano, Pilou Asbek, Michael Pitt. Duração. 107 min.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Linguagem Cinematográfica: O uso da cor vermelha em "O Sexto Sentido"

O uso da cor vermelha em O Sexto Sentido

Por Marlon Fonseca


            As cores sempre foram muito cercadas de significados e simbologias. Muito além do “rosa para menina e azul para menino”, elas vem ganhando as maias variadas atribuições simbólicas ,seja para expressar sentimentos, apontar características, dentre outras atribuições. E o cinema, logicamente, tomou para si esta linguagem para sozinho, ou em conjunto com as demais linguagens que possui, como vestuário, cenografia, fotografia, para enriquecer e aprimorar o modo de se contar uma história.

O cérebro assimila muito mais que a pigmentação, ele as relaciona com diferentes tipos de sensações. As cores quentes são aquelas que provocam uma sensação de calor, excitação, energia, como o vermelho, o laranja e o amarelo. Já as cores frias, como o azul, o violeta e o verde, transmitem calmaria, tranquilidade, estão relacionadas à frescura da água e do gelo.

 Mesmo tendo que considerar o aspecto cultural e psicológico individual, temos exemplos dos mais variados dos simbolismos envolvendo as cores. O preto é, nas culturas ocidentais, tido como símbolo de morte, mas, também, de elegância. O branco traz a paz, o vermelho é tido como símbolo de sexualidade e vitalidade, já o azul escuro como melancolia, dentre vários outros possíveis exemplos.

Esse elemento sozinho, ou aliado a outras linguagens tais como cenografia, figurinos e fotografia, são amplamente utilizadas como emissor de mensagens ocultas ou não. Tais aspectos possuem exemplos muito interessantes e são os que comumente passam despercebidos por grande parte do público. Existem, por exemplo, filmes totalmente estruturados nas cores como a trilogia das cores de Krzystof Kieslowski que utiliza as três cores da bandeira francesa, azul, branco e vermelho e os preceitos de liberdade fraternidade e igualdade, aliadas a uma delas respectivamente.

As cores sempre foram muito cercadas de significados e simbologias. Como exemplo de aplicação no cinema pode se destacar o vermelho em O Sexto Sentido[1] para expressar a presença de elementos sobrenaturais em cena


Dirigido e roteirizado por M.Night, Shyamalan, O Sexto Sentido, lançado no ano de 1999, assusto e encantou plateias do mundo todo com a história do menino que via mortos, Dentre seus vários trunfos, o maior deles é o roteiro extremamente bem elaborado que demonstra ao espectador, durante todo o filme e das mais variadas formas possíveis, seu desfecho que, mesmo assim, só é percebido em seu final.

Um dos elementos utilizados para dar essas “dicas” visuais foi exatamente o uso das cores, principalmente o do vermelho. Nesse universo estabelecido, a cor vermelha representava a presença de algo sobrenatural. Ou seja, se em determinado cena há uma roupa, objeto, ou outro elemento, com vermelho, há a presença de um espírito. . O diretor usa, portanto, a cor vermelha para indicar momentos em que o mundo dos vivos e o sobrenatural interagem.


             A cor vermelha, aqui, portanto, tem um significado específico e oculto, foi utilizada como uma forma de código para determinar a presença do sobrenatural em cena. Com essas informações em mente, o espectador ao rever o filme vai entendê-lo e decodifica-lo de forma diferente e mais abrangente do que anteriormente. Ou seja, com mais esse elemento linguístico e narrativo “descoberto” o filme se abre e renova aos olhos do espectador.

            Já no primeiro encontro entre o psicólogo Malcolm Crowe (vivido por Bruce Willis) e do garoto Cole (Haley Joel Osmont) há a presença da cor no casaco do rapaz o que de imediato dá a grande pista para a surpresa final do filme.

            Assim, ela aparece somente em elementos que têm relação com o sobrenatural, por quem está nele, ou pelos que foram “tocados” por espíritos. Além da cena citada acima ela irá aparecer em vários outros momentos no decorrer de sua projeção Cole, quando é preso no calabouço e agredido, usa uma blusa vermelha. Assim como é vermelho o balão, indo em direção ao calabouço. A tenda no quarto de cole onde aparece à menina Kyra e o vestido da mãe dela são vermelhos. Assim como os números no toca-fitas e a maçaneta que Malcolm tenta abrir em seu consultório. O guardanapo na mesa de jantar do psicólogo, a porta da igreja e as pílulas antidepressivo no banheiro são vermelhos.
 A presença da cor vermelha é utilizada como um ícone, um código, que induz o espectador a prever um momento de tensão, cada vez que ela aparece.[2] 



No dvd do filme, lançado em 2000, em um dos seus mini documentários sobre a produção intitulado “regras e pistas”, o diretor e o produtor Frank Marshall, explicaram seu processo criativo:

“Ele quis pontuar certas partes do filme para quando você o visse novamente pudesse notar que havia dicas no decorrer dele e uma delas era a cor vermelha”, explica Marshall.[3]
“Usamos a cor vermelha para indicar que qualquer coisa no mundo que tivesse sido contaminada pelo outro mundo. (...). Toda vez que aparecia vermelho por engano eu dizia para tirar.”, explica Shyamalan.


            O Sexto Sentido, portanto, traz a linguagem das cores como elemento narrativo implícito que só é codificado pelo espectador após muita análise ou novas informações o que corrobora não só a quantidade e extensão das linguagens que o cinema possui como os ensinamentos semióticos de Pearce.

            Mais do que o que se passa na tela, a imagem do cinema contém outras linguagens passando os mais diversos significados. Acabamos de atestar que uma cor de roupa ou cenário podem indicar mensagens ocultas ou expressas ao espectador



Nota: Esse texto é parte integrante de trabalho de conclusão de curso da faculdade de jornalismo estácio de sá, campus niterói,intitulado "A linguagem cinematográfica aplicada em filmes de terror" criado e apresentado pelo autor em 2016.



[1] O Sexto Sentido (The Sixth Sense). EUA, 1999, Drama. Duração: 107 min, distribuído por Disney, Buena Vista.
[2] http://www.novomilenio.inf.br/ano01/0102b004.htm
[3] Regras e pistas , documentário incluído no DVD O Sexto Sentido (The Sixth Sense). EUA, 1999, Drama. Duração: 107 min, distribuído por Disney, Buena Vista.