quarta-feira, 5 de abril de 2017

Linguagem cinematográfica: Os subtextos sociopolíticos em filmes de zumbi

 Os subtextos sociopolíticas em filme de zumbi tendo como exemplo O Despertar dos Mortos

Por Marlon Fonseca

            Dentro do gênero terror, o de “filme de zumbis” permanece entre os mais populares. Tratando de questões como a volta de pessoas mortas e trazendo sempre imagens fortes e grotescas ele também traz em seu bojo, ainda que de forma indireta, várias questões e críticas sociais.

            Vimos anteriormente que o roteiro é a pedra fundamental de um f ilme. É nele que se inicia o processo de produção e contém de forma escrita toda a história do filme além de informações de personagens, ângulos de câmera, cenário, etc. É nele, também que há as indicações de eventuais subtramas ou subtexto, é o “falar nas entrelinhas”.

            “Se você é um verdadeiro fã do horror, acaba desenvolvendo a mesma sofisticação que um apreciador de balé desenvolve – cria uma sensibilidade para a profundidade a e textura desse gênero”, destaca Stephen King[1]

            A afirmação acima é importante para ilustrar dois pontos: o primeiro corrobora o que foi falado anteriormente. O “leitor” de um filme, quanto mais ciente da complexidade e amplitude de sua linguagem, mais aberto ficará para absorver as informações contidas nele. Já num segundo plano, impõe, ainda que indiretamente o conceito de subtexto.

            Subtexto pode ser definido como “mensagem implícita ou subentendida naquilo que alguém diz ou escreve”[2]  E os filmes de zumbis utilizam-se bastante desse expediente para trazer críticas políticas e sociais.

Os filmes de zumbis modernos trazem verdadeira alegoria política. Desde a década de 1960, estas criaturas assustadoras são usadas no cinema como uma poderosa metáfora crítica originária do mundo anglo-americano para apontar, por um lado, os excessos das sociedades capitalistas e da sociedade de consumo e, por outro, chamar a atenção para as lutas por direitos civis. 

George Romero com seu A noite dos mortos vivos de 1968, não criou o gênero, mas estabeleceu vários parâmetros que são utilizados até hoje. Para Bem Harvey, um estudioso da obra de Romero o filme estava conectado com “às realidades contemporâneas e às questões que estavam na ordem do dia em fins da década de 1960: o racismo, o colapso da família nuclear americana e a ressurreição do conservadorismo político”[3]

Mas foi, em sua sequência “Despertar dos Mortos”, de 1978 que essas aspectos foram ampliados e tornaram-se mais visíveis e contundentes.Na trama, passada após os eventos do filme anterior, o apocalipse zumbi ali iniciado começa a se espalhar por todo o país. Um grupo de sobreviventes se refugia em um shopping center na tentativa de se defender dos perigos.

O “palco” inicial de Despertar dos Mortos já traz uma forte crítica social. O filme é passado quase que totalmente dentro de um shopping center, que desde aquela época, e até o presente momento é usado como um dos principais símbolos do consumismo desenfreado.

            Ver pessoas com olhar distante, voz murmurante, passos arrastado ou em correria sem sentido é uma metáfora quase explícita do que presenciamos em um shopping center qualquer.

            Outra questão interessante é ver um dado zumbi repetindo as atividades que fazia quando “vivo”, como por exemplo, um guarda de trânsito sinalizado a ermo. Essa é uma crítica velada ao condicionamento excessivo, algo que Charles Chaplin já havia eternizado em Tempos Modernos, em 1936.

Em uma sequência do filme essas duas afirmativas são claramente expostas. Centenas de zumbis cercam o lugar – que frequentavam antes de morrer – tentando entrar para satisfazer sua fome. Ao finalmente adentrar o local, os mortos-vivos andam de um lado para outro por corredores, galerias e escadarias, e empurram carrinhos carregados de produtos que não vão usar.


  
            Outra questão sempre pertinente ao gênero é a quebra da ordem social. Com o surgimento da infestação de zumbis, não há mais governo, exército, polícia. Há a sensação de desespero e a busca pela sobrevivência que trazem á tona o que há de pior na humanidade. Nesse cenário, as pessoas acabam mostrando o seu pior, com atos de individualismo e crueldade na busca pela sobrevivência, deixando a questão de quem na verdade é o “selvagem” na história.


            Segundo o próprio Romero
“Meus zumbis são puramente um desastre. Eles são um desastre natural. Deus mudou as regras e de alguma maneira, essa coisa toda está acontecendo. Minhas histórias são sobre humanos que lidam com isso de maneira estúpida, e é por isso que eu os uso. Eu os uso meio que para fazer gozação com o que está acontecendo com um número de eventos sociais. E é isso, eu não os uso somente para criar carnificina. Mesmo que eu use carnificina, não é sobre isso que meus filmes são, eles são muito mais políticos.”[4]





            Assim, além de sustos e cenas marcantes os filmes de zumbis contêm mensagens sociais e políticas, sendo reflexos da sociedade na qual estão inseridas.

            Acabamos de ver algumas nuances a respeito da linguagem escrita no cinema. O roteiro contém todas as informações necessárias para as filmagens além de incluir subtextos para ampliar a sua mensagem. 



[1] KING, Stephen, Dança Macabra, Rio de Janeiro: Objetiva., 2003, página 99

[2] subtexto in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016. [consult. 2016-11-08 14:09:20]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/subtexto
[3] http://cadaumnasualua.blogspot.com.br/2013/08/george-romero-e-secularizacao-dos-zumbis.html
[4] http://umzumbipordia.blogspot.com.br/2012/01/george-romero-explica-os-zumbis-de.html

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Linguagem cinematográfica: 13 Reaons Why


Por Marlon Fonseca

Uma observação rápida sobre a o uso de linguagens da série queridinha do momento (com toda razão) "13 reasons why".da netflix.
Raparem que além da separação narrativa e de montagem da história em linhas diversas, há o uso de maquiagem, vestuário e fotografia para se fazer uma separação temática entre passado e presente além de auxiliar em muitas das mensagens que a obra deseja passar.

Enquanto no passado a iluminação é bem clara e os personagens soam mais bonitos e arrumados, no presente a iluminação é mais escura e os personagens chegam a apresentar-se “mais feios” e até mesmo com machucados ou "defeitos" visuais.

É um bom exemplo de como as linguagens são usadas para passar mensagens e informações e forma indireta. No caso em questão quanto mais o protagonista vai conhecendo o passado, mais feias as pessoas ficam e mais acinzentada é a vida ao seu redor no presente.

Para ilustrar o que foi dito segue como exemplo uma comparação com a personagem Jessica nas duas linhas narrativas.



domingo, 2 de abril de 2017

Crítica #98 - A Vigilante do amanhã

Crítica # 98 – A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the shell, usa, 2017).

Por Marlon Fonseca



Adaptação de manga e animes japoneses que se tornaram cult no ocidente, percorreu um longo caminho até chegar ao que enfim se apresenta, podendo inclusive, abrir portas para outras adaptações desse segmento como Akira, outro projeto em longa gestação.

Batizado aqui de A vigilante do Amanhã sua trama traz a personagem Major, uma agente modificada cientificamente e pertencente a um grupo de operações especiais, tentando se readaptar e encontrar seu lugar nesse novo mundo enquanto investiga os ataques de um cyber terrorista que ameaça a sociedade e essa nova realidade que se apresenta.

Visualmente temos um longa que impressiona e encanta. Com ecos de Martrix e blade runner, sua direção de arte e estilo são inegavelmente o ponto alto do filme. Essa ligação com os longas citados é compreensível pois o primeiro tem a própria animação que o inspira como fonte de suas muitas referências enquanto o segundo traz muito de sua pertinência temática. O casamento com a estética nipônica aliada ao estilo americano nunca ficou tão interessante de se ver e admirar.

O visual e o estilo são os pontos altos.

Se na forma e estilo ele acerta, erra em sua substância. Podendo tratar de temas como o impacto da tecnologia na sociedade, a responsabilização e limites de seu uso, dentre muitos outros, o filme prefere focar-se apenas e tão somente na jornada de redescoberta de sua protagonista.

Mesmo assim, isso não seria o maior problema se essa abordagem tivesse uma execução satisfatória. Porém, temos um filme inteiramente desprovido de emoção. As cens chaves que que Major confronta-se com a verdade e seu passado não conseguem trazer nenhum impacto emocional ao espectador. O subtexto da “alma dentro da casca” (daí o título original da obra) é trabalhado com o artifício de diálogos expositivos e repetitivos.

E essa apatia reflete-se, também, nas cenas de ação. Se a primeira sequência desse segmento, a do ataque de uma queixa-robô a um jantar, apresenta-se como um bom cartão de visitas, as demais são infectadas pela escolha da forma ao invés do conteúdo.

A questão existencial da protagonista é abordada de forma rasa.


            O elenco que traz bons nomes faz o que pode com o material. Scarlett Johansson, já habituada a esse tipo de papel, até tenta trazer um ou outro elemento de composição, como uma rigidez proposital ao andar, por exemplo e se sai bem nas cenas de ação. Juliette Binoche e Takeshi Kitano trazem mais corpo dramático apesar de serem igualmente sabotado pela superficialidade geral.

 Sendo assim, sobra estilo e beleza e falta um conteúdo melhor trabalhado em Vigilante do Amanhã. Aqui, a casca se saiu mais importante que a alma.


Nota: 6,5



Ficha Técnica: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the shell, usa, 2017). Direção: Rupert Sanders. Elenco: Scarlett Johansson, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Takeshi Kitano, Pilou Asbek, Michael Pitt. Duração. 107 min.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Linguagem Cinematográfica: O uso da cor vermelha em "O Sexto Sentido"

O uso da cor vermelha em O Sexto Sentido

Por Marlon Fonseca


            As cores sempre foram muito cercadas de significados e simbologias. Muito além do “rosa para menina e azul para menino”, elas vem ganhando as maias variadas atribuições simbólicas ,seja para expressar sentimentos, apontar características, dentre outras atribuições. E o cinema, logicamente, tomou para si esta linguagem para sozinho, ou em conjunto com as demais linguagens que possui, como vestuário, cenografia, fotografia, para enriquecer e aprimorar o modo de se contar uma história.

O cérebro assimila muito mais que a pigmentação, ele as relaciona com diferentes tipos de sensações. As cores quentes são aquelas que provocam uma sensação de calor, excitação, energia, como o vermelho, o laranja e o amarelo. Já as cores frias, como o azul, o violeta e o verde, transmitem calmaria, tranquilidade, estão relacionadas à frescura da água e do gelo.

 Mesmo tendo que considerar o aspecto cultural e psicológico individual, temos exemplos dos mais variados dos simbolismos envolvendo as cores. O preto é, nas culturas ocidentais, tido como símbolo de morte, mas, também, de elegância. O branco traz a paz, o vermelho é tido como símbolo de sexualidade e vitalidade, já o azul escuro como melancolia, dentre vários outros possíveis exemplos.

Esse elemento sozinho, ou aliado a outras linguagens tais como cenografia, figurinos e fotografia, são amplamente utilizadas como emissor de mensagens ocultas ou não. Tais aspectos possuem exemplos muito interessantes e são os que comumente passam despercebidos por grande parte do público. Existem, por exemplo, filmes totalmente estruturados nas cores como a trilogia das cores de Krzystof Kieslowski que utiliza as três cores da bandeira francesa, azul, branco e vermelho e os preceitos de liberdade fraternidade e igualdade, aliadas a uma delas respectivamente.

As cores sempre foram muito cercadas de significados e simbologias. Como exemplo de aplicação no cinema pode se destacar o vermelho em O Sexto Sentido[1] para expressar a presença de elementos sobrenaturais em cena


Dirigido e roteirizado por M.Night, Shyamalan, O Sexto Sentido, lançado no ano de 1999, assusto e encantou plateias do mundo todo com a história do menino que via mortos, Dentre seus vários trunfos, o maior deles é o roteiro extremamente bem elaborado que demonstra ao espectador, durante todo o filme e das mais variadas formas possíveis, seu desfecho que, mesmo assim, só é percebido em seu final.

Um dos elementos utilizados para dar essas “dicas” visuais foi exatamente o uso das cores, principalmente o do vermelho. Nesse universo estabelecido, a cor vermelha representava a presença de algo sobrenatural. Ou seja, se em determinado cena há uma roupa, objeto, ou outro elemento, com vermelho, há a presença de um espírito. . O diretor usa, portanto, a cor vermelha para indicar momentos em que o mundo dos vivos e o sobrenatural interagem.


             A cor vermelha, aqui, portanto, tem um significado específico e oculto, foi utilizada como uma forma de código para determinar a presença do sobrenatural em cena. Com essas informações em mente, o espectador ao rever o filme vai entendê-lo e decodifica-lo de forma diferente e mais abrangente do que anteriormente. Ou seja, com mais esse elemento linguístico e narrativo “descoberto” o filme se abre e renova aos olhos do espectador.

            Já no primeiro encontro entre o psicólogo Malcolm Crowe (vivido por Bruce Willis) e do garoto Cole (Haley Joel Osmont) há a presença da cor no casaco do rapaz o que de imediato dá a grande pista para a surpresa final do filme.

            Assim, ela aparece somente em elementos que têm relação com o sobrenatural, por quem está nele, ou pelos que foram “tocados” por espíritos. Além da cena citada acima ela irá aparecer em vários outros momentos no decorrer de sua projeção Cole, quando é preso no calabouço e agredido, usa uma blusa vermelha. Assim como é vermelho o balão, indo em direção ao calabouço. A tenda no quarto de cole onde aparece à menina Kyra e o vestido da mãe dela são vermelhos. Assim como os números no toca-fitas e a maçaneta que Malcolm tenta abrir em seu consultório. O guardanapo na mesa de jantar do psicólogo, a porta da igreja e as pílulas antidepressivo no banheiro são vermelhos.
 A presença da cor vermelha é utilizada como um ícone, um código, que induz o espectador a prever um momento de tensão, cada vez que ela aparece.[2] 



No dvd do filme, lançado em 2000, em um dos seus mini documentários sobre a produção intitulado “regras e pistas”, o diretor e o produtor Frank Marshall, explicaram seu processo criativo:

“Ele quis pontuar certas partes do filme para quando você o visse novamente pudesse notar que havia dicas no decorrer dele e uma delas era a cor vermelha”, explica Marshall.[3]
“Usamos a cor vermelha para indicar que qualquer coisa no mundo que tivesse sido contaminada pelo outro mundo. (...). Toda vez que aparecia vermelho por engano eu dizia para tirar.”, explica Shyamalan.


            O Sexto Sentido, portanto, traz a linguagem das cores como elemento narrativo implícito que só é codificado pelo espectador após muita análise ou novas informações o que corrobora não só a quantidade e extensão das linguagens que o cinema possui como os ensinamentos semióticos de Pearce.

            Mais do que o que se passa na tela, a imagem do cinema contém outras linguagens passando os mais diversos significados. Acabamos de atestar que uma cor de roupa ou cenário podem indicar mensagens ocultas ou expressas ao espectador



Nota: Esse texto é parte integrante de trabalho de conclusão de curso da faculdade de jornalismo estácio de sá, campus niterói,intitulado "A linguagem cinematográfica aplicada em filmes de terror" criado e apresentado pelo autor em 2016.



[1] O Sexto Sentido (The Sixth Sense). EUA, 1999, Drama. Duração: 107 min, distribuído por Disney, Buena Vista.
[2] http://www.novomilenio.inf.br/ano01/0102b004.htm
[3] Regras e pistas , documentário incluído no DVD O Sexto Sentido (The Sixth Sense). EUA, 1999, Drama. Duração: 107 min, distribuído por Disney, Buena Vista.

domingo, 26 de março de 2017

Crítica # 97 - Fragmentado

Crítica #97 – Fragmentado (Split, USA, 2016)

Tão multifacetado como o personagem de seu novo longa é o caminho que segue a carreira do diretor e roteirista M. Night Shyamalan. Poucos transitaram intensamente tanto no brilhantismo como no execrável, numa espiral de decadência impressionante. Mas, depois do bom, ainda que com ressalvas, A Visita, ele finalmente volta a acertar.

Na trama, três jovens adolescentes são sequestradas e mantidas em cativeiro e, além do normal desespero de uma situação dessas percebem que seu raptor é dotado de múltiplas personalidades.

Duas grandes características dos melhores trabalhos do diretor estão presentes aqui. A primeira reside num roteiro conciso onde traz informações importantes no decorrer da história que casam harmonicamente no final, não só fazendo sentido, mas trabalhando com o subtexto que propõe de fato a demonstrar.[1] Novamente ele usa da cor, dessa vez amarelo, como um dos elementos e indícios narrativos.[2]

Atuação impecável: as muitas face de Mcavoy


Já o segundo aspecto é na construção eficiente do suspense. Além do citado roteiro, montagem e trilha sonora contida e/ou inexistente auxiliam nesse aspecto. Se não bastasse, nas cenas passadas no cativeiro o uso excessivo de closes fomenta a sensação claustrofóbica da situação. Como um bem-vindo bônus o diretor usa e abusa da simetria, algo que Villeneuve fez também recentemente em A chegada, e que curiosamente, se contrapõe ao caos e desequilíbrio do vilão. Outra referência é uma sequência que homenageia Hitchcock e a mais interessante onde ele, finalmente, se dá o direito de se autocriticar.

Mas nada disso valeria ou teria seu real efeito sem o talento de James Mcavoy. Ele dá um show de composição nas oito personalidades presentes no filme (das 24 que seu personagem possui), cada qual com gestual, olhar, voz e marcas próprias. O mais interessante é que a cada “personagem” que se conhece o espectador consegue diferencia-los exatamente pela composição dispare que cada um possui.
O diretor abusa da simetria

O fato de trazer informações psicológicas e comportamentais através da psicóloga vivida por competência por Betty Buckley enriquece a narrativa e a torna ainda mais interessante.

Trazendo um suspense de primeira com qualidade acima da média, Fragmentado é um novo trunfo na carreira de Shyamalan. Felizmente, dessa vez, a sua personalidade competente foi a predominante.

Nota 9,0




Ficha técnica: Fragmentado (Split, USA, 2016). Direção: M. Night Shyamalan. Suspense. Elenco: James Mcavoy, Betty Buckley, Anya Taylor Joy, Haley Lu Ricardson. Duração: 117min.



OBS: SPOILER!! – O filme em si não traz nenhuma reviravolta surpreendente, mas a cereja do bolo é a cena final que coloca o coloca no universo de Corpo Fechado. Há, inclusive, conversas para um filme juntando o elenco de ambos os filmes.





[1] No caso em questão temos aqui uma ode aos desajustados e um estudo do impacto psicológico do abuso.
[2] Mas esse aspecto vai ficar para ser analisado em outra oportunidade.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crítica # 96- Power Rangers

Crítica # 96 - Power Rangers (Idem, EUA, 2017)

           
Seriado longilíneo que americanizou o conceito japonês de heróis e que fez parte da infância e adolescência de duas gerações tenta se reinventar e restabelecer agora como eventual franquia cinematográfica.[1]

Sua trama adapta e moderniza os eventos da primeira temporada onde cinco jovens adquirem superpoderes que o transformam em Power Rangers e comandado por Zordon tentam por fim á ameaça da temível, Rita Repulsa.

            Antes de tudo deve-se destacar o qual louvável o filme tenta em aprofundar e estabelecer conflitos e características em seus personagens. Jason e Kimberlr, rangers vermelho e rosa respectivamente, por exemplo, são os típicos rebeldes sem causa que desperdiçam seus potenciais. O azul, o verdadeiro coração do filme, tem problemas de autismo e sofre a perda do pai. Já o preto faz banca de engraçadinho mas tem um drama pessoal por traz enquanto a amarela sofre pressão familiar por não se adequar ao modelo de comportamento que eles pregam.

            Ancorados por um elenco de jovens eficiente e carismático e somados a esse tema o espectador realmente consegue simpatizar-se pelos personagens. A referência clara ao clássico clube do cinco e a lição de amizade completam esse arco.

            Mas, paralelamente, o filme reconhece o aspecto absurdo que o conceito de super sentai[2] obviamente possui e traz momentos mais bregas e as habituais piadinhas que o gênero de super heróis se obrigou a ter. Nesse quesito o ranger azul e o carismático alfa 5 são os que se saem melhores.

            O que incomoda de fato é a preguiça dos roteiristas em amarrar os principais eventos e acontecimentos do longa, utilizando o fator “coincidência” em demasia, o que empobrece lamentavelmente a trama.[3] Diálogos excessivamente expositivos também atrapalham a sua qualidade final.
Alpem de tudo uma jornada de descobertas

            Para encorpar o elenco e contrapor aos novatos, Bryan Cranston entrega um Zordon com modificações e questões próprias, além de trazer um background passado mais interessante e ligado a Rira Repulsa. A sequência que estabelece isso é uma das coisas mais sombrias que a marca já se permitiu ter. A vilã inclusive, vivida por uma Elizabeth Banks nitidamente se divertindo no papel, apesar de caricata, rende algumas cenas que casam com a linguagem do terror de forma interessante.

            E o filme, mesmo com os problemas de roteiro acima expostos, dá positivamente tempo necessário para tentar estabelecer universo e personagens, seguindo as regras habituais de um “filme de origem”, trazendo até momentos de treinamento dos personagens para desenvolver sua evolução como heróis. Mas, quando no terceiro ato os Rangers realmente tomam a tela para a batalha final, esta sai, apesar de bem feita e produzida[4], com menos emoção do que se esperava.


Morfados e prontos para a ação

            Mesmo assim no aspecto geral temos um filme divertido e que não aborrece ante um ritmo bem executado.

            Como filme de origem e na tentativa de tornar-se relevante e popular novamente Power Rangers no geral se sai de forma decente com um elenco carismático, produção bem cuidada e ritmo suficiente para soar divertido. Uma eventual sequência mais bem escrita e com cenas de ação mais bem trabalhadas e emocionantes pode sim elevar os personagens ao patamar que desejam.
               
Nota 7,0

PS: Atores do seriado clássico fazem participações especiais. Divirtam-se descobrindo.
PS2: Existe cena na metade dos créditos apontando para aonde a sequência quer ir.




Ficha Técnica: Power Rangers (Idem, EUA, 2017). Ação. Aventura. Direção: Dean Israelite. Elenco: Dacre Montogomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludy Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bryan Cranston. Duração 124 min.


Sobre o autor:
Marlon Fonseca, 38 anos, além de entusiasta e estudioso do assunto, está se graduando em Jornalismo e fez cursos de cinema entre eles de linguagem e crítica cinematográfica com o crítico Pablo Villaça,




[1] Segundo os produtores há um arco definido de no mínimo seis filmes.
[2] Nome dado a esse tipo de seriado japonês de super equipes enfrentando monstros.
[3] SPOILERS – como exemplos o fato de o corpo de rita repulsa ter sido justamente encontrado quando os jovens encontram as moedas do poder. A forma como eles descobriram a nava de zordon também segue esse caminho do acaso oportuno. Dentre outros.
[4] . O diretor Dean Israelite que já havia trabalhado com ficção científica e adolescentes no bom Projeto Almanaque foi o escolhido para comandar o filme.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Dissecando #1 - Batman: O Cavaleiro das Trevas



Dissecando #1 – Batman: O Cavaleiro das Trevas

Por Marlon Fonseca


Passados nove anos da estreia de Batman – O Cavaleiro das Trevas nos cinemas, fica hoje mais fácil de avaliar friamente a obra que figura com extrema justiça em várias listas de filmes mais importantes dos últimos tempos.

Ainda na divulgação de seu longa, o diretor Christopher Nolan esclareceu a sua inspiração em Fogo Contra Fogo. Quem conhece a obra de Michael Mann consegue de fato vislumbrar ecos estruturais em ambos. Temos, assim uma historia de dois homens que transitam e defendem lados opostos, e á medida que vamos conhecendo seus dilemas melhor e o inevitável confronto entre eles está para acontecer, todos ao seu redor são gravemente afetados.

Primeiramente na figura do Batman que, pela primeira vez em sua jornada, começa a acreditar que está colocando Gotham City em ordem. Christian Bale volta ainda melhor ao papel sabendo definitivamente esmiuçar as nuances e complexidades estabelecidas ao protagonista.

E justamente nesse momento, surge um agente do caos e da anarquia, vestido de palhaço, uma força da natureza que “só quer ver o circo pegar fogo” (define Alfred do excelente Michael Caine em um dos muitos fantásticos diálogos que o roteiro apresenta). A atuação de Heath Ledger está entre uma das maiores que o cinema já presenciou. Uma composição minuciosa, complexa que enfoca todos os elementos possíveis como o gestual (o personagem possuir uma postura sempre torta para externar o seu desequilíbrio mental), no passar de língua em sua cicatrizes, na voz e na risada que faz gelar qualquer coração.

A ordem e o caos: duas faces de uma mesma moeda


Os dois são ao mesmo tempo representantes de ordem e caos respectivamente, dois lados de uma mesma moeda que ao mesmo tempo se antagonizam e se completam. Há uma relação simbiótica onde um precisa do outro necessariamente para existir.

O roteiro demonstra isso o tempo todo implicitamente e em dois momentos de forma explicita: o interrogatório na delegacia e no dialogo final entre ambos no ultimo ato (aqui temos vislumbre da brilhante HQ piada mortal).

Por falar em dois lados e moedas, no meio desse embate temos a figura de Harvey Dent (Aron Eckhardt em uma atuação segura) que nada mais é que uma peça nessa disputa entre Batman e Coringa. Para o primeiro, ele representa a esperança de uma cidade melhor, o “cavaleiro branco que Gotham precisa”, um tipo de justiça legalizada, diferente do apresentado pelo vigilante mascarado. Já para o segundo, ele é a possibilidade de mostrar seu ponto de vista que todos se corrompem em algum momento de pressão (outra essência clara de A piada Mortal).

Fonte de inspiração: A piada mortal é o relacionamento simbiótico entre Batman e Coringa

O resultado não poderia ser outro e Dent transforma-se em Duas Caras, a personificação desses pontos de vista antagônicos trabalhados no filme e a representação do conflito entre o bem e o mal que todos vivem diariamente.

No fogo cruzado, Duas-Caras é a personificação do conflito entre o bem e o mal


Além dele, Rachel Dawyes (Maggie Gallenhal que rouba para si o papel que antes foi de Katie Holmes e o aprofundou ainda mais) e o Comissário Gordon (mais um trabalho excepcional de Gary Oldman) também são afetados no meio desse embate
.
Soma-se a isso e temos um verdadeiro tratado sobre policiamento, aqui em sua definição ampla. Seja na discussão sobre a melhor forma de se buscar e realizar justiça, vivida pelo quarteto Batman-Gordon-Dent-Rachel como também na questão, ainda delicada pós-11 de Setembro, sobre a vigilância e seus limites na subtrama encabeçada por Lucius Fux (Morgan Freeman).

Abordagem complexa sobre a questão de justiça e policiamento

Com essas e outras peças na mesa, o filme se desenvolve dentro de uma estrutura de thriller policial, que aos poucos vai apresentando e montado o jogo com um roteiro extremamente inteligente e com a montagem que o acompanha e mantem o ritmo do filme.

Para embalar toda história, a trilha sonora orquestrada de Hans Zimmer a transforma em uma verdadeira ópera trágica.

A direção de Nolan mantém ao máximo possível a historia no plano da realidade e a opção em usar efeitos praticas mesmo em sequencias dificílimas como o capotar de um caminhão e a explosão de um hospital (que resultou numa improvisação sensacional de Ledger) qualificam ainda mais a obra.

O homem por trás das câmeras: Nolan soube trazer temas e subtemas complexas sob a ótica de personagens icônicos


Assim, temos em Batman – O Cavaleiro das trevas um filme bem dirigido, roteirizado, montado, interpretado que travestido de trama policial esmiúça a natureza humana através da utilização de personagens icônicos da cultura pop mundial.